Várias vezes conversamos entre amigos teatreiros como faz falta uma crítica teatral especializada em Santa Maria. Vai continuar fazendo falta. Minha especialização em crítica é no cotidiano de chato/anti-maria-vai-com-as-outras, mas, na falta de outros, - Vou eu mesmo.
sábado, 13 de novembro de 2010
Espetáculo "Acordo Íntimo'
O envolvimento sonoro pré-ação encanta o público, que imerge na cena logo nos primeiros movimentos. Destaca-se o som grave do contrabaixo, instrumento atípico nas trilhas de teatro executadas ao vivo. Soma-se então a iluminação penumbrosa que, junto`a música, cria uma atmosfera de tom pesado, dramático. Quando os personagens jovens entram brincando em cena esse "tom" mantém-se, mostrando um universo anterior, que deixa claro que haverá uma futura explicação do que acontece. Atenção voltada ao cenário, simples, estabelecedor de ambientes que remete o lugar da cena a uma habitação antiga ou velha, de alguém que, em meio a um amontoado de coisas guardadas, necessita de poucas coisas. O cenário intensifica o peso do ambiente. Quando as primeiras frases da personagem da velha senhora chegam de forma clara ao público, acontece o choque. A interpretação de uma idosa por uma atriz muito jovem é difícil. Nesse espetáculo é uma interpretação-imitativa bem feita, porém, deixa dúvidas. A proposta era realizar uma comédia com final triste, uma tragicomédia ou uma história trágica? Digo isso porque a interpretação de velha esteriotipada, com sua corcunda, seu caminhar miúdo e sua boca de lábios frouxos, que soltam palavras enroladas, apresenta ao público uma personagem grotesca que torna-se engraçada. No entanto, criara-se um "clima pesado" pelos elementos de cena e a atuação dos outros atores. As risadas demoraram a aparecer exatamente pela sensação de que aquele ser cômico estava num ambiente trágico. Com a repetição de suas orações e suas manías, a personagem , aos poucos, conquistou a simpatia do público que indentificava-se com tias, avós, mães. A temática da solidão senil e a retomada do passado como bengala é interessante mas fecha-se em si mesma. Concordando com a opinião do dramaturgo Daniel Guebel, as possibilidades de relacionamento entre as personagens são bloqueadas pela objetivação do desfecho. A falta de pequenas surpresas em detrimento de uma grande empobrece a história . Um detalhe que marcou minha percepção foi a falta de sapatos do filho. Observando com o preconceito de quem conhece o costume acadêmico dos personagens aparecerem de pés descalços como conforto para o ator, fui desarmado quando essa situação se justifica na cena. No entanto, a menina também está descalça, sem motivo. Repito, a gravidade está no costume, e não no ato específico.
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